21 de ago. de 2009

Artigo

Ética relegada a segundo plano

Alvaro Dias (*)

Na condição de anfitrião de um jantar que reuniu aliados, o presidente Lula declarou aos comensais que a oposição está sem discurso e que, diante do vazio, só restará hastear a bandeira da ética no pavilhão da campanha eleitoral do próximo ano. Sob a ótica presidencial, a ética não é um abre-alas capaz de empolgar a platéia. Em que pese ter sido a bandeira empunhada pelo Partido dos Trabalhadores durantes anos, quando chegou ao poder substituiu sem cerimônia crenças e símbolos cultuados no passado.

De arauto da ética o presidente incorporou postura contemplativa em relação aos desmandos governamentais que ocorreram ao longo dos seus dois mandatos. Em todos os episódios ruidosos de sua administração, o presidente Lula procurou apresentar-se como advogado de defesa dos acusados do seu governo.

A conduta do Presidente durante um dos grandes escândalos da República, - “o mensalão” – revelou a condescendência com atos de corrupção na máquina pública.
Quando se instalou uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar os cartões corporativos, o Presidente Lula determinou uma “operação abafa”.

A blindagem produziu uma “CPI chapa branca”, para impedir que as investigações evoluíssem, sobretudo para impedir que chegassem ao Palácio do Planalto e abrissem uma caixa preta que esconde os mistérios dos gastos sigilosos da Presidência.
A Transparência Brasil acaba de revelar: os gastos secretos da Presidência da República chegam praticamente à metade do total de dispêndios com cartões corporativos.

Os cartões corporativos se constituíram em instrumento para despesas da ordem de R$35 milhões neste ano de 2009, e as cifras da gastança secreta ou sigilosa – como queiram – correspondem à quase metade do total dos gastos com cartões corporativos.
É contraditório... enquanto combatemos os atos secretos no Senado Federal, os quais devem ser extirpados e banidos do dicionário Parlamento brasileiro, convivemos com a pouca transparência no cerne do Poder Executivo.

A Constituição estabelece que os atos da Administração Pública devem ser revestidos de transparência e publicidade. Portanto, a gravidade imputada aos atos secretos do Legislativo se reproduz naqueles consumados no âmbito da Presidência da República. É inaceitável que quem proclamou a transparência como itinerário do respeito à sociedade possa optar por uma estrada vicinal que sonega gastos efetuados com dinheiro público, oriundo de impostos pagos com sacrifício pela população brasileira.

Sabemos que o cidadão não suporta mais a carga tributária escorchante que, de forma implacável, inibe o crescimento econômico do país, roubando oportunidades de trabalho, de salário e renda.
Nessa linha de complacência com os desvios éticos, o Presidente Lula reitera: não entende a razão de o Tribunal de Contas da União (TCU) impugnar obras superfaturadas. Sua visão é que, mesmo diante da constatação de indícios gritantes de irregularidades, elas não devem ser paralisadas. Acabamos de saber pelo próprio TCU que, a cada três obras auditadas, uma está irregular.

O Presidente da República vetou dispositivo da Lei de Diretrizes Orçamentárias que estabelecia um limite para os gastos com publicidade, diárias e viagens do Governo no ano eleitoral. Um veto que atenta contra a moralidade pública. Mais uma demonstração explícita de desapreço à ética movida pela manutenção de um projeto de poder. Sua interferência no cenário do Congresso Nacional é compulsiva, notadamente na atual crise enfrentada pelo Senado. Restaurar a ética na política e na condução dos negócios públicos é um imperativo para a consolidação da democracia brasileira. O esforço nesse sentido não exime de responsabilidade Sua Excelência o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

(*) O senador Alvaro Dias (PR) é o 1º vice-líder do PSDB na Casa.

Liberdade ameaçada

Marisa alerta para tendência ao autoritarismo na América Latina

A senadora Marisa Serrano (MS) disse que percebeu a preocupação com os rumos da América Latina por parte dos integrantes do Parlamento do Mercosul (Parlasul), reunidos no início desta semana em Montevidéu. Da tribuna do Senado, a tucana alertou: “Estamos vivendo um momento delicado. A maioria dos integrantes do Parlasul percebe que as liberdades democráticas estão sendo ameaçadas das mais diversas formas, nos mais diversos Estados da América do Sul, criando um cenário de retorno pontual de fortalecimento do autoritarismo.”

Venezuela - A tucana pelo Mato Grosso do Sul criticou a nova lei de educação da Venezuela, que, acredita, atenta contra o fortalecimento da democracia ao subverter "as mais caras noções de liberdade de expressão e pensamento”. A lei determina que os meios de comunicação sejam obrigados a dar cooperação ideológica na tarefa educativa e a ajustar sua programação seguindo critérios de balizamento do governo.

Para Marisa, isso é censura sistemática sobre a imprensa. A nova lei cria ainda o conceito de educação socialista, estabelece cotas para os indicados pelo governo, elimina o ensino religioso mesmo nas escolas privadas e reduz a autonomia dos professores universitários. A senadora demonstrou ainda preocupação com o fato de que países como Bolívia, Equador e Nicarágua seguirão as mesmas orientações, "fomentando um clima de confronto com os setores democráticos da sociedade, restringindo as liberdades e impondo o controle estatal em cada segmento livre da cidadania".

A tucana defendeu o combate e a denúncia aos atos que atentem contra a liberdade de opinião e discussão, a luta contra medidas restritivas que impeçam a imprensa de divulgar informações de interesse público e a resistência a aceitar que a censura possa ser uma justificativa para proteger biografias ou impedir manobras de caráter político-eleitoral.

Mesmo preocupada com o que ocorre inclusive no Brasil, ela acredita que a democracia e a liberdade vão prevalecer. Marisa fez um apelo ao povo brasileiro para que esteja atento e não permita o cerceamento da liberdade de expressão, de imprensa e de escolha da melhor maneira de educar para os filhos”. (Da assessoria de imprensa com Agência Senado/ Foto: Ag. Senado)
do

Monitoramento

Chucre pede a ministro informações sobre “Minha Casa, Minha Vida”

O deputado Fernando Chucre (SP) apresentou na Câmara pedido a ser enviado ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, no qual o tucano cobra informações sobre os recursos já aplicados no programa "Minha Casa, Minha Vida".

Ponto a ponto - Em seu requerimento, o parlamentar questiona o ministro sobre a quantidade de unidades habitacionais já contratadas e iniciadas, o cronograma de entrega dessas unidades, as faixas de renda atendidas e a porcentagem que cada faixa representa no total contratado, a média de contratação de unidades por mês e a quantidade de projetos em andamento que foram enquadrados nas regras do programa após o lançamento do programa.

Chucre também quer saber do ministro qual é o volume de recursos despendidos com as unidades contratadas e de qual orçamento o recurso teve origem: se foi do FGTS, do Tesouro ou outro. “O programa tem R$ 34 bilhões de verbas. Portanto, precisamos saber se esse dinheiro tem sido bem empregado e qual é a tipologia dos imóveis aprovados até agora”, justificou.

Para o deputado, detalhes da execução do programa precisam ser divulgados pelo governo federal. “É importante que o Parlamento tome ciência do andamento dos projetos do Executivo na área de habitação, que é um direito constitucional do brasileiro tão pouco respeitado neste país”, ressaltou. (Da redação com assessoria do deputado/ Foto: Eduardo Lacerda)

Em prol do consumidor

Deputados vão à Anatel discutir qualidade de serviços de Telecom

Os deputados da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) vão se reunir nos próximos dias com técnicos da Anatel para avaliar o cumprimento pela Telefônica dos planos de curto, médio e longo prazos definidos junto ao órgão regulador para garantir a estabilidade da rede de banda larga no Estado de São Paulo. No encontro, os deputados também vão discutir outros problemas do setor de telefonia, como o alto índice de reclamações dos usuários registrado nos órgãos de defesa do consumidor.

Atuação conjunta - O presidente da CCTCI, deputado Eduardo Gomes (TO), informou que a visita acontecerá em conjunto com deputados da Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara, que também debateu o assunto em audiência pública no mês passado. Os deputados querem ter a certeza de que os investimentos e o planejamento necessários para manter a qualidade do serviço aos usuários estão sendo feitos pela operadora. Segundo ele, é importante que o tema seja tratado conjuntamente pelas duas comissões, para que haja mais agilidade no repasse de informações, evitando "retrabalho".

Autor do requerimento que solicitou a audiência pública sobre o tema na CCTCI, o deputado Julio Semeghini (SP) manifestou especial preocupação com os pequenos municípios do Estado, onde a banda larga ainda está em implantação. Essas localidades foram diretamente afetados com a suspensão da comercialização do serviço.

A comercialização do serviço de banda larga foi suspensa pela Anatel no fim de junho depois de sucessivos problemas na rede que levaram a interrupções do serviço. A agência cobrou da empresa um plano de estabilidade para que o Speedy volte a ser comercializado. (Da redação com assessoria da CCTCI/ Foto: Eduardo Lacerda).

Em benefício da população

Vellozo Lucas defende mudanças nos botijões de gás

A revenda de gás de cozinha está em discussão na Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio (CDEIC) da Câmara, onde os deputados avaliam o risco e as regras de segurança para a implantação da revenda de gás de cozinha no varejo. Integrante do colegiado, o deputado Luiz Paulo Vellozo Lucas (ES) afirmou que o modelo atual dos botijões dificulta a inovação tecnológica.

Limitações - “O botijão de gás de 13 kg tem 60 anos. Ele é a fonte de energia mais popular, mas limita a escolha do consumidor e faz com que o mercado perca a concorrência. A competitividade traria benefícios para a população”, destacou. A possibilidade de venda de gás no varejo está prevista em projeto de lei do deputado José Carlos Machado (DEM-SE).

Vellozo Lucas explicou que a comissão debate um conjunto de medidas para regular a atividade e aperfeiçoar o sistema atual. “O botijão é uma despesa que pesa no orçamento da família. O sistema de distribuição faz com que os preços subam. Além disso, o consumidor tem que pagá-lo à vista e muitas vezes não utiliza todo o gás do recipiente”, avaliou.

O tucano sugere a elaboração de novos modelos de recipiente. “Os botijões poderiam ser fabricados em tamanhos diferentes e com a possibilidade de reutilização. Também deveriam oferecer um tipo de vedação mais seguro”, disse o deputado. Ele lembrou que os botijões apresentam problemas de segurança e provocam vários acidentes. O risco de acidentes no trabalho de recarga, armazenamento e venda do produto para evitar risco aos trabalhadores e cidadãos também está em discussão na CDEIC. (Reportagem: Alessandra Galvão/ Foto: Eduardo Lacerda)

Descaso

Thelma cobra do governo do MT obras de infraestrutura

A deputada Thelma de Oliveira (MT) visitou recentemente municípios do interior de Mato Grosso e acompanhou de perto o drama de moradores de municípios como Água Boa, Canarana e Nova Nazaré. Segundo ela, o governo estadual tem tratado com descaso a classe produtiva e os habitantes desses municípios, que não recebem obras de infraestrutura há muito tempo.

Carências - Segundo a parlamentar, essa é uma região carente de pontes e estradas, algo fundamental para o desenvolvimento do local. Diante desse quadro, a parlamentar criticou a falta de atenção do governo. De acordo com Thelma, vários movimentos sociais estão se organizando em prol da pavimentação da MT 326 e da construção de ponte sobre o Rio das Mortes, com apoio de diversas prefeituras. “São obras de vital importância para a região do Calcário. É preciso acabar com a insensibilidade do governo estadual”, alertou. (Reportagem: Djan Moreno; Foto: Eduardo Lacerda)

Desburocratização

Hauly defende redução da carga tributária via ICMS

Em pronunciamento, o deputado Luiz Carlos Hauly (PR) destacou a necessidade de manter as tentativas para reduzir a alta carga tributária que, após a aprovação da Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas, passou a residir sobre o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Segundo ele, milhões de trabalhadores já estão sendo beneficiados com a lei, fruto de um projeto de sua autoria. No entanto, o tucano acredita que é preciso assegurar a redução de impostos, já que o ICMS seria usado para aumentar a carga tributária.

Forte impacto - "Cerca de 22 milhões de pessoas que não tinham carteira de trabalho ou qualquer cobertura previdenciária passarão a tê-las, desde que desejem aderir a esse que é o maior programa de inclusão previdenciária da história do Brasil. Mas nós não desistimos de resolver o problema que está agora no ICMS das pequenas e microempresas", explicou.

De acordo com Hauly, com o fim da burocracia, trabalhadores autônomos e profissionais como feirantes, camelôs, eletricistas, pedreiros e cabeleireiros poderão inscrever-se no regime previdenciário pagando entre R$ 50 e R$ 57 por mês com a possibilidade de ter até um empregado. "Com isso, haverá a formalização perante os governos federal, estadual e municipal", elogiou. (Reportagem: Djan Moreno/ Foto: Eduardo Lacerda)

Ciência e Tecnologia

Inovação e desenvolvimento em tempos de crise

Por Eduardo Gomes & Rodrigo L. Medeiros (*)

A preocupação de parcelas expressivas do empresariado brasileiro com a temática da inovação merece destaque positivo. Os debates iniciaram-se há algum tempo, porém a crise econômica reforçou a necessidade de se passar rapidamente do discurso à prática.

Chama a atenção o fato de apenas 28% do empresariado conhecer as linhas específicas de crédito do BNDES. A pesquisa foi realizada pela FIESP para sondar como anda o conhecimento dos empresários sobre a Lei de Inovação, de dezembro de 2004. Esta, por sua vez, ainda é muito pouco conhecida pelo empresariado.

Um arcabouço institucional capaz de estreitar a colaboração entre academia e empresariado chegou a entusiasmar no primeiro momento. No entanto, mudanças de mentalidades demandam tempo e esforços coletivos. Esse parece ser um momento oportuno para tanto, pois a crise econômica demanda políticas públicas mais ousadas no campo dos estímulos à inovação e ao desenvolvimento.

A distância entre academia e indústrias ainda é grande no Brasil. Para se ter apenas uma rápida idéia, basta mencionar que são de brasileiros 2% dos artigos científicos publicados no mundo, um esforço que coloca o país na 13ª posição. Entretanto, entre as solicitações de patentes, o Brasil encontra-se em 24º lugar. O Brasil forma 1,6 engenheiros para cada 10 mil habitantes ao passo que os chineses 4,6. Para as pessoas que esperam competir por preços com os chineses o recado é claro.

Dados da OMC expõem um quadro merecedor de reflexões. Algo entre 55% e 75% das exportações dos países mais desenvolvidos e dos tigres asiáticos é oriundo de três indústrias: metal-mecânica; química; e eletroeletrônica. Levando em conta que os EUA, o Japão e a Europa respondem por pouco menos do que 70% dos gastos globais em pesquisa e desenvolvimento (P&D), não se faz necessário muito esforço para compreender as ações de defesa da indústria automobilística norte-americana desde a década de 1980, quando os japoneses estavam inundando o respectivo mercado daquele país. Quotas de importações foram adotadas, pois empregos e capacidades tecnológicas dinâmicas estavam em jogo.

Para um país que deseja ser bem-sucedido no setor de serviços, as estatísticas da OMC também revelam ser necessário primeiro se tornar mais produtivo na indústria de transformação. Trata-se, portanto, de um ponto de passagem quase obrigatório os ganhos sistêmicos de eficiência e produtividade nas indústrias de transformação para que os setores primários e terciários de uma economia sejam dinamizados.

As premissas da competição atomística não se sustentam perante as realidades vivenciadas pela civilização industrial. Há meio século, Joseph Schumpeter notou serem as grandes firmas responsáveis pela grande maioria dos processos inovadores. Nesse ambiente de concorrência imperfeita, as firmas menores podem buscar crescer com estratégia e inteligência nos interstícios deixados pelas grandes empresas. Do ponto de vista das políticas públicas, o arcabouço institucional previsto na Lei de Inovação pode se tornar efetivamente um instrumento valioso.

Segundo dados do IBGE, as grandes firmas concentram no Brasil 78,7% dos investimentos em P&D, seguidas das médias, 13,2%, e das micro e pequenas, 8,1%. Quais as conexões que podem se formar e fortalecer a partir de uma nova política industrial capaz de articular ações matriciais no âmbito das indústrias de transformação brasileiras? Eis um tema aberto para o debate acadêmico, parlamentar e da sociedade civil. Algo que provavelmente necessitará levar em conta as persistentes disparidades sociais e regionais no Brasil.

(*) Eduardo Gomes é deputado federal (PSDB-TO) e Presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara, dep.eduardogomes@camara.gov.br

Rodrigo L. Medeiros é Professor Adjunto da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), medrodrigo@gmail.com